Alexsandra Bastos Minha Epifania

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ele & Ela

Se viram e nunca se esqueceram.
Ela o percebeu carinhoso, suave, bonito...
Sem pretensão, guardou isso consigo e seguiu.
Ele se confessou interessado, admirado, cativado...
E tudo foi declarado!
Eles se apaixonaram pela idéia de se enamorarem.
Mas a idéia precisava ser tocada. Eles queriam se tocar!
Para a surpresa de ambos, as mãos tatearam no escuro e permaneceram vazias.
Ele requeria tempo, ela não podia esperar.
Ela carinhosa, voltada pra ele, entregue.
Ele arredio, voltado pra si, reservado.
Silêncio.
A solidão que se reconhece lado a lado, frente a frente e não se dissolve no abraço.
Talvez porque o abraço faltou, nos braços amputados de desejo, de afeto.
Faltou o abraço! Faltaram os sentidos todos!
Ela, que não podia prever a dimensão desse encontro, agora, tinha a real medida da ausência.
E doeu. Doeu, e ela não se entregou. Ela nunca se dá por vencida!
Havia uma casa colonial, cercada por um jardim bonito.
Bateu à porta, esta lhe fora aberta, e a entrada permitida.
O morador era solitário, mas a casa tinha muitos cômodos.
Podia ser habitada a qualquer momento, só que ele precisava querer.
Ela pensava que ainda era cedo para se quedar ali.
Ele sequer a convidara para ficar. Até ele estava de passagem...
Ela entendeu, mas achou que podia conduzi-lo para ver o pôr-do-sol da janela da sala.
Ele aceitou a proposta e, juntos (enfim juntos), debruçaram-se na janela.
Deram-se as mãos.
O sol estava ali. Absoluto, despedia-se, mas prometia voltar.
Compreender esse movimento de vida e morte era necessário.
Ela sabia disso, embora também sentisse medo.
Ele chorou.
A casa estava vazia, e ele chorou porque não sabia receber ninguém.
Achava até que não queria abrir as portas. Contraditório, pois havia lugares na mesa. 
Só que a comida precisava ser servida.
"Então, meu caro, chegada a hora de plantar a comida que será servida à mesa.
Levante-se! Tem solo fértil lá fora! Vamos! Há muito trabalho!" - Ela disse, com ternura.
Ele chorou porque já teve fome.
Ele chorou porque, a despeito de não ter mais fome, ainda estava faminto.
Talvez, por isso, doía-lhe o estômago.
Como ninguém enxergou isso antes? A lembrança doía-lhe o estômago!
Só que, agora, tinha fome de viver.
Que bom! Ela sempre ouviu dizer que a fome anunciava um doente recuperado. Sinal de melhoras!
Ela chorou porque queria dele cuidar e passagens na história apagar.
Ela chorou porque "há sempre muito amor no amor".
Encontraram-se, enfim. E era tudo o que tinham: o encontro.
Agora sim: se viram e nunca mais se esqueceriam.
Agora sim: tinham um ao outro.
Agora sim: estavam despidos.
Eles se tocaram e, depois, veio a música.
Era um reggae, e o céu estava azul.
E sabe aquele pôr-do-sol? Agora era visto de outra janela.
Ele já entendia.
Ela também entendia.
Eles permeneciam de mãos dadas.
Ela carinhosa, voltada pra ele, entregue.
Ele carinhoso, buscando o caminho...


Um comentário:

  1. amiga,
    o engraçado é que a foto que acompanha o texto parece revelar dois pores de sol distintos. Será que ele e ela estavam vendo o mesmo por-do-sol? Esse ciclo, de se por e nascer no dia seguinte...que louco! Eu gosto de ver o por do sol no mar, por que ele sempre parece que mergulha na imensidao das águas. Olha so, o renascer precisa desse mergulho, se ficar na superficie nao é por do sol genuino, nao é morrer para o que passou, sem esse mergulho o que foi nao vai, o que vira nao vem, tem que mergular, tem que mergulhar!!! Ela mergulhou? Ele mergulhou? E a musica que tocava era reggae...huhuuu...eu ia dançar se fosse a moça da casa colonial...

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